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6 de janeiro de 2017

Fogo sagrado na Ribeira dos Icós




Foto: Mateus Leandro (Fotografias Afeição Digital)

Todo dia primeiro de janeiro, cinco horas da tarde, o tempo se torna sagrado em Icó, cidade a 370 km de Fortaleza, na várzea do rio Salgado. Mulheres e homens que tiveram a graça de nascer lá, de morar em tão precioso chão, e até mesmo visitantes, viajantes, sabem sentindo, e sentindo é que nós humanos sabemos, todos eles, mulheres e homens, sabem que todo dia primeiro de janeiro, cinco horas da tarde, outra ordem se estabelece. É a hora da saída da procissão do Senhor do Bonfim.

Cerca de duas horas e dois quilômetros depois, entre flores, volta ao santuário. Toda a produção coletiva da fartura de beleza posta em festa a cada dezembro encontra seu destino. Cidade-lapinha, Icó jardim-vagalume com presépios dentro e fora das casas, fachadas bordadas de luz, janelas e sacadas a multiplicar altares, cada pessoa no seu melhor enfeite, corpo e cidade feitos festa pública, essa Icó-exaltação é rio rumo à foz do dia primeiro de janeiro. O instante agora que virá acende cada um dos dias passados e vai ressoar nos dias que virão.

O Senhor do Bonfim vai chegando à igreja que o guarda e de onde guarda a cidade há mais de 250 anos e Icó vira explosão. Artesanais, em uma instalação que dizemos caminhos do fogo invocando caminhos outros – os das águas, os da indiada, os das boiadas -, as milhares de bombas do santo talvez atualizem como artefato-acontecimento, dando-lhes uma outra vazão, violências da fundação e feitura do que chamamos Ceará. É o maior dia do ano em Icó. Cada criatura amada ausente é lembrada, faz-se presente. Esteja em Itu ou Ipu, Inglaterra ou qualquer beira-mar, cada pessoa de laços incandescentes com Icó, estará sendo, sentindo(-se) Icó. Desconheço outra cidade que tem um dia, uma hora, em que todos, todas que conhecem tal cidade, desejem estar lá, pensem nela, vibrem por ela. O silêncio do lembrar-se, partilhado ou não, como uma imensa oração.

Hoje (6 de janeiro), ao final do dia, o Senhor do Bonfim volta ao altar. É “a subida do santo” depois de uma semana entre os humanos. A “descida do santo” é na madrugada de todo primeiro de janeiro, o dia em que o mundo acaba em Icó. E começa outra vez.



Por:Izabel Gurgel
izabelrosagurgel@gmail.com
Jornalista
http://www.opovo.com.br/

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